24.03.25
tl;dr: Um detalhe marcante da velha internet 1.0 são os botões que eram inseridos em sites para indicar preferências, pertencimento a grupos, causas sociais e detalhes técnicos. Descrevemos como proceder para obter ou fazer botões e fazemos uma breve pesquisa sobre dois períodos importantes da jovem Internet que ajudaram a popularizar estes botões: os protestos contra a censura na internet e a Guerra de Navegadores.
Bom, depois de terminar a estrutura básica do meu site estático de html à lá web 1.0, é claro que ainda faltava uma coisa: um carrossel de botões 88x31.
Esses botõezinhos pixelados eram amplamente utilizados durante o primeiro e segundo períodos da internet (digamos, entre 1995 e 2012) para indicar todo tipo de coisa em relação à página que os continham e seu dono: adesão a causas sociais, pertencimento a grupos específicos, características técnicas do site, preferências de uso... a lista é grande.
Hoje, nos ambientes feitos e prontos das redes sociais que frequentamos, estes botões perderam seu espaço, sendo renegados a arquivos e snapshots de tempos antigos.
Um desses arquivos que merece destaque é o da Cyber Vanguard, que apresenta uma coleção muito divertida, e organizada em ordem alfabética! Foi daqui que tirei a maioria dos botões que aderi para o carrossel na minha home. Outro arquivo interessante é o da hellnet.work, que é muito, muito vasto. Essa é uma coleção aparentemente sem moderação ou organização, que é certamente uma grande referência histórica neste tópico, mas que contém uma boa fração de botões incompreensíveis fora de contexto.
Criar um botão 88x31 não é muito difícil; afinal, sua popularidade vem de mãos dadas com sua simplicidade. Basta obter uma imagem qualquer com resolução 88x31, ou obter uma série dessas imagens e transformar em um gif, ou ainda obter um vídeo curto, redimensioná-lo para 88x31 e transforma-lo em um gif.
Os dois primeiros botões que fiz foram bastante simples. Para o primeiro, eu renderizei o código /LaTeX no LaTex e então diminui a imagem para 88x31. Para fazer isso, utilizei o site pixelartvillage.com, pois ele tem configurações de contraste que permitem eliminar um pouco do "blur" que surge com o redimensionamento de arquivos de imagem. Então, eu fui apagando cada uma das letras até obter os 6 frames do gif, e utilizei o site ezgif.com/maker para compor minhas imagens em um gif:
O próximo foi um processo bem semelhante, a única diferença é que eu utilizei uma pixelart de fundo.
Já esse aqui foi um processo mais árduo. Para que não sabe, esse é um loopzinho do conjunto de Mandelbrot, um fractal muito famoso que surge a partir de algumas condições simples envolvendo números complexos. Primeiramente eu encontrei um visualizador do conjunto na web (se você nunca brincou com um treco desses, vai na fé que é muito legal!) e então fiz uma maracutaia envolvendo riscar meu monitor com uma caneta pra saber onde eu deveria clicar para que, com o zoom a cada clique, a primeira cópia menor do conjunto ocupasse o espaço na tela do conjunto todo. Depois disso, cuidadosamente tirei prints a cada zoom, redimensionei todos eles e concatenei num gif. Esse foi o resultado:
Por fim, eu queria um botão que indicasse minha nacionalidade, então peguei um gif que achei legal da bandeira do Brasil e redimensionei para o tamanho adequado. Então, foi só questão de colorir o fundo com o verde da bandeira e concatenar no gif:
Agora, tendo ficado mais tempo do que deveria vasculhando aquele acervo maneiro da Cyber Vanguard, eu não pude deixar de questionar a história de alguns dos botões mais recorrentes. Daí, acabei lendo um pouco sobre história da Internet, particularmente sobre dois períodos específicos que, ao que me parece, ajudaram bastante na popularização dos botões 88x31.
Um dos primeiros usos extensivos dos botões foi com a campanha "Blue Ribbon Campaign for Online Free Speech", organizada pela Electronic Frontier Foundation (EFF) em meados da decada de 90, a fim de protestar contra o "Communication's Decency Act" (CDA), um ato consitucional que foi passado pelo congresso dos EUA da noite pro dia e sem consulta com o público em 1996 que, entre outras coisas, tornava ilegal a propagação de conteúdo indecente ou obsceno em ambientes virtuais acessíveis por pessoas menores de idade.
Segundo a página da EFF, arquivada aqui, "a última versão do CDA (...) contém uma mortal combinação de definições vagas e excessivamente amplas sobre o que é considerada fala aceitável online (...) que irá causar uma onda de censura (por parte de provedores) a fim de evitar responsabilidade legal, real ou percebida. (...) Se a Internet é uma vasta biblioteca global de informação, essa legislação a reduz à sua seção infantil." (trad. liv.)
Essa legislatura foi construída com a ideia de se equiparar a regulamentação da Internet com aquela a qual o rádio e a TV já eram submetidas, que limitavam discursos considerados ofensivos para horários em que se havia menor probabilidade de haverem expectadores menores de idade.
Não entrando aqui no mérito da censura governamental sobre a mídia e as comunicações, é difícil discordar com a EFF quando ela argumenta que a Internet é fundamentalmente diferente destes serviços, uma vez que ela é intrinsecamente interativa e democrática. Dessa maneira, a censura à Internet é muito mais próxima da censura à fala e expressão em si do que da censura da mídia. O possível resultado da passagem desse ato é que provedores de sites teriam que realizar uma moderação muito mais rígida de seu conteúdo, o que provavelmente acarretaria no banimento de tópicos inteiros de boa parte da Internet.
De fato, levando em conta o quão ampla é a (não) definição dada pela legislação, o conteúdo passível de ser considerado sensível vai desde a pornografia (o provável alvo primário da legislação), até mera linguagem profana como xingamentos e palavreados, passando por classes de conteúdo muito importantes como imagens médicas que contém nudez, registros históricos, notícias sobre eventos violentos, e muito mais.
Se levado às suas últimas consequências, esse ato provavelmente mudaria drasticamente o futuro da Internet. Podemos imaginar um futuro hipotético em que a Internet se restringe a formas mais passivas de conteúdo, como textos de autores específicos, artigos de empresas e agências de jornal, filmes e séries, etc. Por um lado, a liberdade de expressão e compartilhamento de informação na rede seria severamente limitada. Por outro, talvez a ascenção do discurso de extrema direita não fosse tão ultra-amplificada como vemos hoje, e dessa maneira algumas figuras políticas que deveriam cair no esquecimento jamais teriam subido ao palanque. De um jeito ou de outro, são fortes consequências não só para a cultura da Internet, mas para a própria história! Assim fica ilustrado o quão relevante foi esse momento.
Em resposta a esta legislatura, a EFF promoveu a tal campanha da fita azul, que incentivava donos de páginas na web — chamados então de "webmasters", um termo digno de classe de RPG — a colocarem em seus sites uma fita azul, escolhida como símbolo de defesa dos direitos civis eletrônicos, incluindo a defesa ao direito humano básico de liberdade de expressão.
Esse movimento foi amplamente apoiado e a campanha, rapidamente adotada. Para facilitar a aderência, a fita foi incluída em design de diversos botões simples e de baixa resolução, que poderiam ser facilmente inseridas já contendo o link para o site do movimento em qualquer site: os queridos botões 88x31.
Após o vasto repúdio por parte da base de usuários da web, adotando não só as medidas acima mas também o chamado "Great Web Blackout" (Grande Blackout da Web), que incentivou os webmasters a tornarem os fundos de suas páginas pretos por 48h, o ato foi julgado inconstitucional pela suprema corte.
Outro uso interessante dos botões foi durante as chamadas "Browser Wars" (Guerras de Navegadores). Essas foram disputas entre empresas desenvolvedoras de navegadores por popularidade e domínio de mercado. Estes conflitos, uma vez que diziam respeito ao próprio modo de acesso à Internet, moldaram de forma definitiva parte da cultura da jovem Internet, introduzindo um sentimento de comunidade e rivalidade no espaço virtual.
O primeiro grande conflito desse tipo, que foi posteriormente apelidado de "First Browser War", surgiu quando a Microsoft decidiu que iria acompanhar toda instalação do Windows, que já era de longe o sistema operacional mais utilizado em computadores pelo mundo, com uma cópia do Internet Explorer 4, seu navegador proprietário. Isso resultou em um desafio certeiro ao status quo do navegador que até então era padrão, o Netscape, já que o IE era bastante parecido com ele, e muitas pessoas não se importavam o suficiente para ativamente trocar de navegador.
Na realidade, a Microsoft já na década de 90 usava de táticas sujas e anti-usuário para favorecer seus produtos: o IE4 era um aplicativo extremamente intrusivo, que modificava configurações e arquivos do sistema para que ele fosse usado para abrir todo tipo de coisa, desde documentos de ajuda do sistema operacional até pastas. Sim, o IE4 forçava o usuário a usá-lo para navegar no seu próprio computador. Isso é efeito de uma noção da época de que toda a computação eventualmente se tornaria "web", eventualmente substituindo o próprio sistema operacional. Era nessa direção que a Microsoft caminhava com essas """funções""" (pragas) do IE4.
Esse conflito culminou quando uma equipe da Microsoft levou à fachada da Netscape um grande "e", a logo do IE. Os funcionários da Netscape responderam derrubando a logo de 3 metros de altura e adicionando uma placa que dizia "Netscape 72, Microsoft 18", uma referência às respectivas parcelas de mercado de cada empresa.
Com toda essa disputa, tornou-se comum entre webmasters a utilização de botões 81x33 que indicavam sua preferência de browser, seja para assinalar lealdade (de preferência ao lado certo kk), ou apenas para informar em qual navegador o website foi feito e testado, já que haviam certas incompatibilidades de recurso entre os dois. Dessa maneira, surgiram os icônicos botões "best viewed with..."
Curiosidade: até hoje essas incompatibilidades existem! Por exemplo, a tag <marquee> hoje é considerada obsoleta e, portanto, já não funciona no Firefox. Em contraste, ela ainda tem suporte em navegadores à base Chromium como o Chrome e o Opera.
Como sabemos, essa disputa acabou com a vitória do Internet Explorer, que resultou em um processo por parte da Netscape por anti-trusting, onde a Microsoft foi julgada culpada de abuso de monopólio.
Conforme a popularidade do Netscape entrava em declínio, a empresa tornou aberto o código do navegador e confiou seu desenvolvimento a uma empresa sem fins financeiros: a Fundação Mozilla. Logo, a organização iniciou a produção de um novo navegador baseado no antigo Netscape e pensado como seu sucessor.
O nome escolhido para o novo navegador inicialmente foi "Phoenix", pois esse seria o projeto que renasceria o Netscape de suas cinzas. Entretanto, por conta de problemas de copyright, o nome foi mudado para Firebird, e então para Firefox. Assim, nasceu o Mozilla Firefox: um competidor aberto, livre e mantido por uma comunidade de usuários de maneira voluntária. Esse foi o início da Second Browser War.
O Firefox logo herdou uma base de usuários fieis do Netscape e começou a se destacar por seu desenvolvimento rápido. Features como uma barra de pesquisa, audio e video nativos, algumas coisas de qualidade de vida e suporte para protocolos mais modernos também garantiu para o navegador uma fatia generosa do mercado, uma vez que o desenvolvimento do Internet Explorer estava essencialmente congelado por conta da sua comodidade como navegador padrão.
Após alguns anos de disputa entre o IE, o Firefox e alguns outros aplicativos como o Opera, com sua longa tradição de leveza e modernidade, incluindo funções que seriam essenciais no futuro como as abas, surge um novo candidato a navegador padrão: o Google Chrome.
Apesar de receios iniciais em entrar na guerra dos navegadores, a Google foi convencida a tornar o navegador um de seus principais produtos quando um projeto inicial se mostrou um grande destaque entre a concorrência. O Chrome, sendo baseado na plataforma aberta e livre Chromium, tinha um desempenho a parte para a época, além de trazer uma interface mais limpa e moderna, com recursos inovadores como a fusão da barra de URL com a barra de pesquisa na "omnibar" que é padrão hoje e a ampla utilização de extensões para personalizar e potencializar a experiência do usuário.
De fato, o Chrome foi um sucesso arrebatador, logo deixando o Firefox em segundo lugar na corrida e finalmente superando o IE. Na realidade, o Chrome varreu o cenário de maneira tão absolutamente dominante que desencadeou no declínio e obsolescência do até então invicto Internet Explorer, levando a Microsoft a abandoná-lo por uma alternativa baseada no próprio Chromium, o Microsoft Edge.
É claro que o Chrome tem seu mérito como essencialmente o precursor do navegador moderno em seu processo de varrer o Internet Explorer do mapa, mas, sem querer ser um hater chato, boa parte da culpa de isso ter acontecido é da própria Microsoft! Desde sua vitória sobre o Netscape, o IE nunca se destacou por sua performance, ou por sua inovação, ou mesmo por suas funções; o Firefox e o Opera sempre estiveram à frente nesses quesitos e, posteriormente, o Chrome tomou esse lugar. A realidade é que o IE ficou no topo pelo mesmo motivo que chegou lá: abuso de thrusting, táticas de comércio sujas e o famoso "bundling": o fato de que o IE simplesmente acompanhava o Windows e, por um período, o MacOS também (sob ameaça de que, caso o IE não fosse o navegador padrão do MacOS, a MS cancelaria o suporte do Office para sistemas Apple; tática suja!) Olhando por esse lado, até parece um certo sistema operacional horrível que mantém seu monopólio inquestionado por mera comodidade do usuário...
Enfim, voltando ao que interessa: esse período de novas disputas levou a novos sentimentos de pertencimento e, é claro, a novos botõezinhos!
Avançamos alguns anos para os dias de hoje, onde o Chrome domina mais de 70% do mercado, sendo o navegador mais utilizado em (praticamente) todo o mundo, com quase toda sua concorrência sendo baseada no Chromium (Opera, Safari, Edge, etc), ou seja, essencialmente skins do mesmo aplicativo. De fato, a única concorrência real ao monopólio da Google é o Firefox (siga firme amigo!)
Em resumo, botõezinhos são legais, e tem uma boa história pra contar, refletindo um tempo em que a internet era mais nossa. Ela ainda pode ser; então tome-a! Faça um site, faça seus botões e crie seu espaço.